Gestão de Conhecimento e Aprendizagem Organizacional

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Dado, Informação e Conhecimento

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Conhecimento é um idéia importante em muitas áreas, sendo por isso conceituado de diversas formas, mas em nenhuma delas parece ter surgido uma conceituação capaz de se tornar uma referência, se não universal, pelo menos capaz de satisfazer diferentes áreas. O presente artigo certamente não tem essa pretensão, mas tem a ambição de ser útil pelo menos na área de Gestão do Conhecimento, dentro da qual foi elaborado o artigo original(1) onde esse conceito começou a ser trabalhado.

O conceito proposto, que se pretende muito mais operacional do que filosófico, pois não tem nenhuma fundamentação filosófica explícita, faz uma forte vinculação entre Dados, Informação e Conhecimento. Por isso a necessidade de conceituar cada um deles. Observe-se que os conceitos propostos não buscam qualquer vinculação com aqueles usualmente empregados na área de Tecnologia da Informação, apesar da forte ligação desta com as implementações de Gestão do Conhecimento.

Dado

É qualquer indício ou registro que permita identificar alguma característica de uma entidade ou evento.

  • “indício ou registro”: por que um dado não é, necessariamente, resultado de uma intenção de registrar alguma coisa - um som qualquer, uma pegada, a sombra de um objeto, o aspecto de uma rocha, podem ser dados;
  • o dado não precisa ser um registro físico - uma imagem ou um valor, guardados na memória de uma pessoa, ou transmitidos verbalmente, podem ser dados;
  • “entidade” está representando qualquer coisa, concreta ou abstrata, sejam objetos, entes, idéias, fatos, situações, etc.

Informação

É o significado que um conjunto de dados tem para alguém.

Um conjunto de dados representa uma Informação, para uma pessoa, quando ela consegue perceber as relações entre os elementos do conjunto, que lhe definem um contexto, e suas relações com outros dados e informações que já lhe são familiares, lembranças, impressões, experiências, etc., estabelecendo assim seu significado para ela.

  • Informação é uma visão pessoal sobre um conjunto de dados - as relações percebidas associam ao dado um significado próprio, na medida em que são específicas para cada indivíduo, pois dependem de suas experiências anteriores, do que ele tem armazenado em sua memória e de sua capacidade de estabelecer essas relações. Assim, um mesmo conjunto de dados não gera a mesma informação para diferentes pessoas. Nos casos mais simples, envolvendo dados e relações menos complexas, as informações percebidas por diferentes pessoas poderão ser mais semelhantes. Quanto maior a complexidade da Informação, mais ela dependerá do repertório anterior e da capacidade de cada indivíduo de estabelecer essas relações e, portanto, mais pessoal será.
  • Informação é, portanto, a leitura que cada indivíduo faz de um conjunto de dados, é o significado que lhe atribui ao “internalizar” esses dados.
  • As relações mencionadas podem ser percebidas intuitivamente, e assim permanecerem, podem ser interpretadas posteriormente, ou podem ser estabelecidas pela reflexão. Em geral haverá uma mistura de todas essas situações. Quando as relações são predominantemente intuídas, e assim permanecem, podemos caracterizar a informação como tácita. Quando grande parte das relações é determinada conscientemente, ou interpretada conscientemente a partir da percepção inicial, ela é explicitável. Em geral a explicitação não pode ser total, pois raramente todas as relações serão determinadas ou interpretadas conscientemente - algumas delas podem permanecer inconscientes ou difíceis de descrever, ou podem estar associadas a impressões, lembranças, etc., também difíceis de verbalizar.

Poderíamos representar as informações armazenadas na memória como uma complexa rede, onde os nós representariam dados, e as ligações seriam as relações estabelecidas entre eles. Um nó com alta densidade de ligações representaria uma Informação mais rica. Um nó isolado seria um dado memorizado sem um significado associado. Qualquer novo dado introduzido nessa rede, como informação, ao estabelecer suas relações, seria colocado na região onde se concentrasse a maior densidade de suas relações. Essa posição, junto com as relações, representaria seu significado, pois o localizaria junto a informações afins e evidenciaria suas conexões com elas. Perceberíamos, então, que a introdução de uma nova informação sempre afetaria de alguma forma a rede, isto é, modificaria informações e significados previamente existentes.

Poderíamos identificar, dentro da rede, diferentes áreas de concentração de conexões. Elas poderiam estar representando assuntos, isto é, áreas de informações mais relacionadas entre si.

Poderíamos ainda perceber segmentos com certas configurações espaciais semelhantes, indicando a presença de diferentes estruturas de aquisição de informações. As estruturas já existentes poderiam facilitar a aquisição de novas informações, pois o estabelecimento de suas relações seria facilitado pelo uso dessas estruturas como “modelos”. Por outro lado, uma ênfase excessiva nessas estruturas pré-existentes poderia acarretar uma certa rigidez ao processo, dificultando a criação de novas estruturas e, portanto, a aquisição de informações com características muito diferentes das já possuídas.

Comunicação da Informação

Sabemos que dados podem transmitidos e recebidos com um grande grau de fidelidade. A comunicação de dados é algo presente em muitos aspectos de nossa vida diária. E a informação, poderia também ser comunicada?

Se o detentor da informação for capaz de explicitar a maioria das relações que estabeleceu na aquisição da informação, poderá eventualmente comunicá-las a outros. Estes poderão, assim, adquirir uma informação semelhante, mas certamente diferente da original, não só pelas limitações na identificação e explicitação das relações, como também pela impossibilidade de assegurar que as relações estabelecidas tenham o mesmo significado para cada receptor. Essa nova informação, do receptor, poderá se aproximar daquela, na medida da precisão e abrangência da explicitação, da qualidade da comunicação e da equivalência das experiências pessoais do emissor e dos receptores, relacionadas diretamente ou não ao assunto (background geral e específico). Portanto, uma informação só pode ser objeto de uma comunicação se suficientemente explicitada e, mesmo assim, sem garantias de fidelidade.

Conhecimento

Ao conceituar “informação” acima, mencionamos a necessidade de seu detentor possuir uma capacidade de estabelecer relações dentro de um conjunto de dados e desse conjunto com outros conjuntos de dados e informações já existentes em sua memória, para estabelecer seu significado. É a essa capacidade, desenvolvida por alguém, que chamamos de conhecimento.

  • É uma capacidade, pois o conhecimento é dinâmico: quem conhece pode estabelecer novas relações, tirar novas conclusões, fazer novas inferências, agregar novas informações, reformular significados. Ao exercitar o conhecimento, ele se consolida e cresce.
  • As relações podem servir para estabelecer contextos para as informações, realizar comparações, categorizações, classificações, associações, etc., que definirão seu significado e a capacidade operativa sobre elas.
  • Muitos fatores podem influir na facilidade do estabelecimento e na riqueza das relações percebidas: experiência, insight, intuição, raciocínio lógico, etc.
  • Quanto maior o volume de informações e conhecimentos de alguém, maior sua facilidade de ampliá-los, pois não só partirá de uma base mais rica de informações e conhecimentos, aumentando as referências para o estabelecimento de novas relações, como, provavelmente, conhecerá um repertório maior de tipos de relações e estará também mais “treinado” para reconhecê-las.
  • Se as relações mencionadas forem predominantemente apenas intuídas, estabelecidas pela percepção e não trabalhadas conscientemente, teremos um conhecimento Tácito.
  • Se grande parte das relações for deduzida conscientemente, ou interpretadas conscientemente a partir de sua percepção inicial, teremos um conhecimento Explícito.

Explicitação do conhecimento

Mais ainda que no caso de informações, é possível explicitar apenas uma parte do conhecimento, pois, além das limitações da linguagem verbal, muitas das relações que esse conhecimento permite estabelecer são apenas intuídas, muitas das informações que participam das relações também podem ser tácitas ou relacionadas a impressões, lembranças, valores, crenças, etc., aumentando ainda mais a dificuldade da explicitação.

Entretanto, da mesma forma que a ciência utiliza modelos para descrever a Natureza, ciente que está descrevendo uma abstração, uma visão parcial e idealizada daquela, o conhecimento explicitado pode descrever modelos (lógicas, regras, métodos, analogias, etc.) que “ensinam” a operar sobre determinados conjuntos de dados, para obter pelo menos parte das informações que o detentor original do conhecimento é capaz de conseguir a partir deles. Essa explicitação pode ir sendo depurada e desenvolvida, caminhando na mesma direção do conhecimento original.

Graus de conhecimento

Do que foi dito acima, podemos conceituar conhecimento (sobre um assunto) como:

É a capacidade, adquirida por alguém, de reconhecer um conjunto de dados como pertencente ou relacionado ao assunto, interpretar e operar sobre eles, extraindo deles significados, isto é, informações. Essa capacidade vai sendo desenvolvida através da aquisição de mais informações sobre o assunto, isto é, do exercício reiterado de estabelecer relações sobre diferentes conjuntos de dados, e desses conjuntos com outros conjuntos que já lhe são familiares (incluindo outras informações, experiências, impressões, valores, crenças, etc.), que lhe permitem atribuir-lhes um significado e tirar conclusões sobre eles, e a partir deles.

Podemos reconhecer que a posse de um conjunto significativo de informações (mas não apenas de dados) sobre um assunto já indica um conhecimento, pois pressupõe necessariamente que houve a capacidade de extrair essas informações de conjuntos de dados.

A capacidade de explicitar um conhecimento seria o grau mais elevado desse conhecimento, não necessariamente relacionado à sua extensão ou profundidade, mas à compreensão de seus mecanismos.

Comunicação do conhecimento

Da mesma forma que no caso da informação, só um conhecimento explicitado pode ser objeto de comunicação, O nível de sucesso no processo de comunicação não será representado pelo grau de semelhança formal entre o conhecimento original do transmissor e aquele adquirido pelo receptor no processo de comunicação, que não há como ser medido, mas pelo grau em que esse processo facilite ao receptor o estabelecimento de capacidades operativas semelhantes sobre conjuntos de dados semelhantes, na criação do seu conhecimento.

A tentativa de comunicar um conhecimento, mesmo com suas dificuldades e limitações, pode ajudar a desenvolver e multiplicar esse conhecimento - por um lado, o esforço para sua explicitação e comunicação, e para dar respostas a eventuais dúvidas e questionamentos, pode resultar no seu aprofundamento ou refinamento por parte de seu detentor original - por outro, cada receptor, ao adquirir a sua versão daquele conhecimento, pode também aprofundá-lo e estendê-lo.

De qualquer forma, a melhor maneira de comunicar um conhecimento, isto é, permitir que outros o adquiram, é criar condições para que cada receptor reproduza e vivencie, real ou virtualmente, caminhos equivalentes aos que permitiram sua aquisição pelo detentor original, apoiando-o eventualmente nesse percurso.

Referências

1. HASHIMOTO, Alberto N. – O QUE É CONHECIMENTO – disponível em http://kmol.online.pt/artigos/2003/02/01/o-que-e-conhecimento - acessado em 14/09/09
2. SETZER, Valdemar W. – DADO, INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO E COMPETÊNCIA – disponível em http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/dado-info.html - acessado em 14/09/09

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13 comentários

  1. Rafael Ramos
    25 Set 2009 | 17:30

    Ana,

    Isso foi quase uma revisão bibliográfica para uma dissertação! Felizmente, na minha dissertação atual tenho outras referências diferentes desta (como Drucker, Nonaka e Takeuchi, Terra etc.). Vou utilizar as suas também.

    Um abraço.

  2.  
  3. […] portal KMOL » Blog Archive » Dado, Informação e Conhecimento kmol.online.pt/artigos/2009/09/25/dado-informacao-conhecimento

  4.  
  5. Ana Neves
    25 Set 2009 | 18:28

    Rafael,
    Por favor atente ao facto de o texto não ser da minha autoria mas sim do Alberto Hashimoto que, gentilmente, quis connosco partilhar a forma como as suas ideias têm evoluído nesta matéria.
    O KMOL, felizmente, recebe contribuições de outras pessoas e esta é uma delas.

  6.  
  7. Alberto N. Hashimoto
    25 Set 2009 | 19:31

    Rafael, quando a KMOL publicou meu artigo original, em 2003, eu estava bastante interessado na área de KM (Gestão do Conhecimento). Participando de grupos de discussão e lendo os autores mais mencionados na época, como Nonaka e Takeuchi, Davenport, Senge, etc., fiquei intrigado pela ausência de um conceito de “conhecimento” razoavelmente consensado pelo menos dentro dessa área. Senti até que muitos autores “fugiam” da responsabilidade de assumir um conceito. Fui então buscar os conceitos da Filosofia, mas eles me pareceram pouco “operacionais” para a KM. Por isso resolvi refltir mais sobre o assunto e escrevi aquele primeiro artigo. Mas os conceitos básicos expostos lá não me satisfaziam e desde aquela época venho repensando o assunto. E recorri à gentileza da Ana Neves para publicar essa revisão da parte inicial daquele artigo, pois o restante eu não mudaria muito.
    Espero que lhe seja útil.
    Abraços,
    Alberto

  8.  
  9. Marcelo Mello
    25 Set 2009 | 21:01

    Excelente artigo. Sempre simpatizei com a abordagem proposta por SETZER para caracterizar DADO, INFORMAÇÃO E CONHECIMENTO. Sua proposta me parece seguir uma linha bem próxima, com algumas diferenças em relação ao conceito de Conhecimento. Há quem defenda que podemos incluir ainda um próximo nível de abstração, chamado de SABEDORIA, o qual, ao meu ver, diz respeito ao uso que se faz do conhecimento e que tem forte relação com os valores de cada um.

    grande abraço e obrigado pelo artigo.

    Marcelo Mello

  10.  
  11. Ana Neves
    25 Set 2009 | 21:55

    Uma das primeiras pessoas que vi referirem a Sabedoria (Wisdom) como sucessora do Conhecimento foi Verna Allee que já tive o prazer de aqui entrevistar.

  12.  
  13. Alberto N. Hashimoto
    25 Set 2009 | 22:07

    Obrigado, Marcelo.
    Penso que há diferenças entre os conceitos do Setzer e os meus, já sobre “informação”, mas principalmente sobre “conhecimento”, como vc. já apontou, Mas, sem dúvida, de todos os que eu já li, são os mais próximos. Não tenho certeza se na época da publicação do meu artigo original eu já tinha lido o artigo do Setzer, pois não o mencionei como referência, mas pode ter sido uma falha minha, pois lembro de ter conversado com ele sobre competência em 2001 ou 2002.
    Quanto à “sabedoria”, não consigo ver no mesmo encadeamento conceitual de “dados, informação e conhecimento”, pois é um conceito ainda mais subjetivo e envolve juizos de valor, o que não acontece com aqueles.
    Abraços,
    Alberto

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  15. […] gestão_de_conhecimento, informação 0 comentários Bem na sequência do recente texto de Alberto Nobuyuki Hashimoto, deram-se duas curiosidades […]

  16.  
  17. Angelo Ricchetti
    6 Out 2009 | 15:45

    Como o conhecimento só se dá a conhecer no momento que a pessoa age, pois está internalizado no seu inconsciente, creio que o último elemento desta sequência é mesmo a “competência” pois desvela o conhecimento. De todos os modos, quem conhece é sempre o ser humano, de forma pessoal e única, de modo dinâmico e tem um vídeo no youtube mostrando o conhecer de um jovem muito interessante: http://www.youtube.com/watch?v=arD374MFk4w

  18.  
  19. Ana Neves
    6 Out 2009 | 16:10

    Muito obrigada, Angelo. O vídeo que sugere é uma inspiração e é um exemplo bem interessante de como a informação que se adquire nos livros pode ser posta em prática de forma e dar origem a conhecimento e competência.

  20.  
  21. Alberto N. Hashimoto
    7 Out 2009 | 20:56

    Oi Angelo,
    Muito estimulante o vídeo. Pode-se ver a motivação, a busca do conhecimento e a realização se alimentndo mutuamente.
    Quanto à competência, concordo que, do ponto de vista dos outros, é o agir que evidencia o conhecimento. Mas o agir e, portanto, a competência, dependem também de outros fatores, não relacionados ao conhecimento, como a motivação e a habilidade.
    Vejo a competência em 3 relações diferentes com o conhecimento:
    A primeira, exemplificada por um pesquisador em matemática, onde a competência praticamente só depende do domínio do assunto específico e se demonstra dentro dela.
    A segunda, pelo caso de um estatístico trabalhando em marketing, onde a competência depende do conhecimento de estatística, mas que tem que se equilibrar com o conhecimento de marketing.
    A terceira, exemplificada por um gerente que não possui grandes conhecimentos específicos, mas tem uma capacidade intuitiva de liderar equpes. Certamente há um conhecimento tácito por trás de sua competência, porém mais difícil de caracterizar.
    Abraços,
    Alberto

  22.  
  23. elaine Hipólito
    15 Out 2009 | 20:51

    Bom dia, estou fazendo um trablho com cooperativas de catadores e você escreveu textos falando sobre como transformar experiência em conhecimento.
    Preciso muito falar com você e se possível você ler o que tenho escrito para entender o que preciso.
    Podemos conversar? posso contar com sua ajuda?
    Você tem telefone para contato?

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  25. Alberto N. Hashimoto
    18 Out 2009 | 02:09

    (Respondido diretamente à Elaine Hipólito)

  26.