Lee Bryant
Lee Bryant

Para aqueles que se interessam pela utilização de ferramentas sociais nas organizações e que acompanham o que de bom se vai fazendo lá fora, Lee Bryant (@leebryant) deve dispensar apresentações.

Ele é especialista em comunidades online e em social networking e co-fundador da Headshift (parte do Dachis Group), que ajuda as empresas a usar ferramentas sociais para criar aplicações relevantes e redes sociais com propósito.

Trabalhei com ele na Headshift. Tenho o maior respeito pela sua experiência e uma grande admiração pela paixão com que trabalha.

Aqui fica uma breve reflexão sobre gestão de conhecimento (ou partilha de conhecimento como ele prefere dizer) e sobre ferramentas sociais. Uma entrevista há muito adiada.

O que é para si a gestão de conhecimento?

Eu não utilizo a expressão “gestão de conhecimento”. Em vez disso, falo de partilha de conhecimento.

Qual é a sua percepção sobre como a gestão de conhecimento (GC) é entendida e posta em prática pelas organizações?

Durante o período da GC estava-se demasiado preocupado com a organização de stocks de conhecimento, em vez de estimular fluxos de conhecimento. Isto significa que muitas organizações estão ainda na fase de recorrer a repositórios de conhecimento e a sistemas de gestão de conteúdo, o que limita os resultados que podem obter. Eu penso que são dois os problemas que a GC enfrenta nas organizações: primeiro, o acto de organizar o conhecimento não é visto como sendo mais importante do que uma biblioteca, por isso falta-lhe apoio político; segundo, a GC deixou-se tornar dependente das TI, e por isso não controla as ferramentas usadas.

Falou do “período da GC”. Que período é esse?

Considero que o período da GC teve início nos anos 90 e continuará enquanto as pessoas continuarem a falar de auditorias de conhecimento, repositórios e afins. Na minha perspectiva a partilha social de conhecimento ultrapassou a prática da gestão de conhecimento.

Nota grandes diferenças na aplicação da GC entre organizações no Reino Unido e noutros países?

No sector da advocacia, a GC tem um papel muito importante nas empresas líderes. Tal não acontece nos Estados Unidos onde é visto como um custo desnecessário.
Penso que na prática não há grandes diferenças regionais / culturais (tirando os clichés habituais, como por exemplo o da Alemanha ser muito mais focada no conhecimento e bases de dados periciais do que a maioria dos países europeus). Penso que as principais diferenças têm a ver com as culturas organizacionais específicas.

Qual o papel das ferramentas sociais na gestão de conhecimento organizacional?

As ferramentas sociais podem criar o tecido de conexão que une as pessoas e, consequentemente, estimular um maior fluxo de conhecimento. O conhecimento raramente tem um valor fixo fora deste contexto, e por isso a partilha de conhecimento está inicialmente preocupada em ligar as pessoas – isto é o que as ferramentas sociais fazem muito bem.

Que “valor fixo” é esse que refere?

Um dos argumentos que os profissionais da gestão de conhecimento usavam para conseguir conquistar atenção era a ideia de conseguir valorizar os bens intangíveis. Daí que capturar e armazenar conhecimento era uma prioridade (para capturar o seu valor). O meu ponto é que o valor de um objecto de conhecimento é quase totalmente dependente do contexto, pelo que não têm uma valor fixo. Tem tudo a ver com a forma como partilhamos e tiramos partido do conhecimento em contexto. Assim, suponho que seja outro argumento contra o ênfase em stocks de conhecimento e a favor de pensar como é que o conhecimento flui.

Como é que as ferramentas sociais podem mudar a forma de trabalhar das organizações?

Grande questão, uma resposta vaga: de milhentas formas. Se acreditarmos que a melhor solução para a maioria dos problemas consiste em pessoas discutirem, testarem ideias e explorarem soluções, esse é um potencial objectivo para a melhor partilha de conhecimento através de ferramentas sociais. Falamos na “humanização da empresa” porque pensamos que a época das organizações burocráticas, orientadas por processos, chegou ao fim, e o futuro tem a ver com organizações em rede, baseadas em pessoas e inteligência humana aumentada, capazes de se adaptar e evoluir.

Trabalha com muitas organizações, ajudando-as a construir plataformas de colaboração interna. Estas estão a ser verdadeiramente usadas para colaboração ou as organizações tendem a cair nos velhos hábitos de as usar essencialmente para comunicação?

Um pouco de ambas. Eu diria que a maioria as usa mesmo para colaboração. Mas se não conseguem popularizar a sua utilização, e não se conseguem vozes suficientes, então a voz corporativa permanece a mais forte.

Que impacto é que sites públicos como o Facebook, o Twitter e mais recentemente o Google+ têm nas pessoas e nas organizações?

Acima de tudo educam os utilizadores sobre o que é possível em termos de como as redes sociais operam. Torna-se cada vez mais difícil aos departamentos de TI gastar milhões de euros e muitos meses a construir sistemas internos horríveis quando os utilizadores vão para casa todas as noites aceder gratuitamente a sistemas melhores e mais fáceis de usar.

A sociedade está a mudar. A economia está a mudar. As organizações estão a mudar de acordo com essa mudança geral?

Sim e não. A mudança está presente mas distribuída de forma desigual. Há muitas empresas fechadas, tradicionais, que vão conseguir sobreviver durante muitos anos, enquanto noutras áreas, já estamos a assistir a pressões de mudança por parte de ágeis startups concorrentes. Este é um longo processo e demorará muitos anos, mas pelo menos já começou. A era da empresa do século XX está a esmorecer e a maioria das novas organizações mais bem sucedidas têm DNA do século XXI.

Imagine que consegue olhar para o futuro. Quais serão as maiores diferenças entre as organizações hoje e as daqui a 5 anos?

Uma enorme redução na burocracia, que será substituída por um maior fluxo e mais ênfase na autonomia pessoal dentro de redes fluídas. Antevemos uma era de negócio social que promete custos mais baixos, maior agilidade e um percurso de crescimento mais sustentável.

Note: This original version of this interview is available, in English, here.

Ana Neves
é sócia-gerente da knowman - Consultadoria em Gestão, Lda, empresa através da qual presta apoio de consultadoria nas áreas de gestão de conhecimento, aprendizagem organizacional, mudança cultural e social media. Tem participado como oradora convidada em conferências e facilitado workshops em Portugal, Brasil e Inglaterra. Criou e mantem o KMOL. Perfil no LinkedIn No Twitter

3 comentários em “Lee Bryant

  • Appreciated the notion of knowledge being perceived as “flow” instead of the classic static accumulation notion.
    Suspicious about the free flow of knowledge.
    Relevant knowledge is a too valuable thing to be disclosed for free.
    At least not in these unethical markets.

  • Thanks Ferdinand. Flow does not presume free. But within a single firm or community, I think the assumption is that free flow is the most effective, with each individual or group filtering to receive what they need.

  • OK, agree that “free flow is the most effective, with each individual or group filtering to receive what they need.” But when it comes to relevance, administration is the first to keep it “classified”.
    Not trying to imply that its not the right thing to do.
    This exposes the assymetry of behavior of “in power” and employee.
    My main complaint is that KM or better, KS seems to assume a stabilized field with no politics, no real people.




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